Desde que a
mulher chutou uma bola de futebol, pela primeira vez, no Brasil, o homem fez
cara feia pra ela, por achar que aquilo era coisa só dele. A
atitude, correspondida pelo Estado comandado pelo presidente Getúlio Vargas, a
proibiu de paticar o balípodo, pelo
artigo 54, do decreto-lei 3.199, de 1941, que lhe proibia, também, de praticar
outras modalidades consideradas impróprias para o sexo. Uma autêntica bola fora
do então Conselho Nacional de Desportos, só escanteada em 1979.
Foram
38 temporadas de proibição. Quando elas se libertaram da lei de Vargas e
rolaram a pelota, foram classificadas por lésbicas
e execradas pelos patrocinadores que não as queriam associadas às suas marcas.
Filhas de famílias pobres, para elas, o futebol e seu agressivo marketing poderia ser um meio de subida
social para as as negras, mas demorou muito para que alguma delas se tornarsse
uma garota-propaganda.
No
caso da acusação de serem lésbicas (termo
em desuso, substituído por sapatão), um exemplo meio-recente da
discriminação rolou, em 2001, quando Federação Paulista de Futebol exigiu para
elas exibissem feminilidade, cabelos compridos, corpo delicado e curvilíneos, além de usarem
uniformes mais curtos e justos.
Passada a fase mais dura do preconceito contra
a mulher futebolista, especialmente as negras, rolou, pela segunda metade do
século 20, elas serem pouco procuradas pela
imprensa. Quando isso ocorria, era para enaltecer a beleza das brancas, como da
atacante Bel, do Internacional-RS, que chegou a ser capa de Playboy, a então
principal do segmento sexy brasileiro. Tempos depois, a primeria negra a fazer
o mesmo, na mesma revista, foi Marta, da Seleção Brasileira de voleibol, mas
sem ganhar capa, só páginas internas.
Vejamos o que se pode
falar das quatro principais atletas do futebol brasileiro:MARTA
– Nenhuma futebolista bazuca
conseguiu tanta notoriedade quanto Marta da Silva Vieira. Eleita, pela FIFA, a
melhor do mundo, por seis vezes, a menina da alagoana Dois Riachos – nascida em
19.02.1986 - foi para o Vasco da Gama, com 14 de idade, em busca de um sonho.
Fez 16 jogos e quatro gols, e sagrou-se campeã brasileira sub-19, em 2001. Por
ver o futebol das mulheres sem importância por aqui – ainda defendeu o Santa
Cruz-MG, por 38 jogos com 16 tentos -, ela foi se consagrar pelo sueco IK, pelo
qual foi artilheira de quatro campeonatos e melhor atacante de 2007/2008.
De lá para cá, Marata tem feito a sua
carreira entre Suécia e Estados Unidos. O seu currículo inclui as artilharias
de Copas do Mundo e de Jogos Pan-Americanos, além de duas medalhas de prata
olímpica. Primeira mulher a jogar uma partida internacional entre os homens,
ela foi chamada pelas Nações Unidas para ser sua Embaixadora da Boa Vontade. No
Brasil, Marta não é considerada negra. Para os padrões europeus, não deixa de
ser. Só não enfrenta preconceitos de cor no Velho Mundo por que é uma tremenda
atleta do futebol e que já chegou a seis
Bola de Ouro – a última em 2018.
Considerada
a melhor de todos os tempos, mesmo assim, Marta ganha 0,3% do rendimento anual
do atacante Neymar, do francês Paris Saint-Germain, o brasileiro com maior
renda bruta anual no futebol, embora os números dela pela Seleção Brasileira
sejam melhores - desde 2015, ninguém marcou mais gols do que ela, 118, entre
homens e mulheres. Tem, também, medalhas
olímpicas de prata-2004/2008 , da Copa do Mundo-2007, e de ouro dos Jogos
Pan-Americanos-2003/2007 e é a maior goleadora de Copas do Mundo, entre homens
e mulheres, com 17 bolas na rede.
Quando
passou três meses no paulistano Santos FC, venceu a Taça Libertadores da
Améric, usando a camisa 10 que consagrou Pelé.
Com tudo isso, Marta não tem um patrocinador desde julho de 2018, o
final do seu contrato com a Puma. Recusou-se a renová-lo, pelo valor oferecido
(não divulgado). Prefere escrevr “goal equal” em sua chuteira, pois a soma dos
cinco maiors salários femininos equivale a R$ 7,7 milhões de reais, enquanto os
dos homens equivalem a R$ 175 milhões.
PRETINHA - A primeira futebolista negra a ficar famosa (mas nem
tanto) no Brasil foi Pretinha, isto é, Delma Gonçalves, que chegou à Seleção
Brasileira, em 1991, e por lá esteve até 2014, tendo disputado quatro Copas do
Mundo, quatro Olimpíadas, trazendo as medalhas de prata de 2004 e de 2008.
Conquistou, ainda, a medalha de ouro dos Jogos Pan-Americanos-2007, no Rio de
Janeiro.
Cria do Vasco da Gama,
Pretinha chamou a atenção da imprensa pela bola que jogou na Grécia e valeu-lhe
ser vice-campeã olímpica dos Jogos de Atenas-2004, quando foi a artilheira e
encantou os japoneses, que a levaram – jogou também, nos Estados Unidos e na
Coreia do Sul. Ser goleadora, por
sinal, foi uma sina de Pretinha. Ela
escreveu o seu nome como a principal “matadora” das Copas do Mundo
-1991/95/99/2007 e das Olímpiadas-1996/2000/2004/2008, sua segunda medalha de
prata.
MICHAEL JACKSON – Quando
o cantor norte-americano fazia sucresso
em todo o planeta, o futebol das meninas brasileira revelou uma xará dele, Mariléia dos Santos. Por 12 temporadas, ela foi da Seleção Brasileira,
tendo ido a duas Copas do Mundo e a uma Olimpíada. Esteve no grupo que disputou
a o Mundial-1991.
Nascida
em 19.11.1963, teve 11 irmãos e começou na bola aos 12 de idade, em Valença-RJ.
Além do escrete canarinho das décadas 1980/90, passou por Corinthians, Vasco da
Gama e Internacional-RS. Em 1995, foi levada pelo italiano Torino, tornando-se
a primeira brasileira a jogar por clube de fora do país. Foi eleita, pela Federação Internacional De Historia e
Estatística do Futebol a terceira melhor jogadora do século 20 na América do
Sul .
FORMIGA
– Ela já tem 41 de idade – nasceu em
03.03.1978, em Salvador-BA -, mas segue indispensável à Seleção Brsileira. Miiraildes Maciel Mota, a Formiga, faz jus ao apelido, pois
é uma verdadeira formiguinha em campo. Razão de ter sido vice-campeã
olímpica-2004/2008 e vice-campeã
mundial-2007, jogando como valente ou meia. Único ser do mundo da bola (entre homens e mulheres) a ter
disputado sete Copas do Mundo, é a mais velha a marcar um gol - em 2015, quando
tinha 37 de idade),
Formiga
bate o recorde, também, em partipações olímpicas, com seis presenças, ao lado espanhol Manuel Estiarte (polo aquático), e da russa
Evgenia Artamonova (vôlei). Além das medalhas prateadas já citadas, ela
tem, ainda, as de ouro dos Jogos Pan-Amerianos-2003/2007/2015, e a prata de
2011. Em números de jogos canarinhos, com 151, ultrapassa o mais atuante do
time masculino, Cafu (Marcos Eangelistas de Morais), com 149.
Cahamada pelos
familiares e amigos por Mira, ela coleciona, também, três títulos da Taça Libertadores
da América e um Mundial Interclubes. Desde 1993, quando se profissionalizou,
já passou por 16 times – entre Brasil,
Suécia, Estados Unidos e França -, mas só um da Bahia, de São Francisco do
Conde, em 2016.
Desde 2017, defende o francês paris Saint-Germanin.
Formiga diz que jamais
sofreu ataques racistas na Suécia, nos Estados Unidos e na França, mas não
escapou disso quando jogou na cidade de Caçador, em Santa Catarina, onde um
torcedor gritava “macaca” sempre que ela tocava na bola. Nascida em Lobato,
periferia e Salvador, ela começou a chutar a bola aos 7 de idade. Vizinhos a
chamavam por mulher-macho. As vezes,
leava porrada dos irmãos, por jogar junto com meninos.
Aos 16, Formiga estreou
na Seleção Brasileira. O apelido surgiu aos 14, quando disputava uma partida do
Campeonato Baiano e era a menorzinha no gramado. De mulheres atletas
brasileiras, só ela e Marta são
figurantes do Museu do Futebol, em São Paulo, ao lado dos maiores ídolos
masculinos do futebol canarinho.