Vasco

Vasco

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

FERAS DA COLINA - ADÃO BRANDÃO

 Ele foi campeão em todas as modalidades que disputou. Coisa de superatleta. De um supercruzmaltino, dono de uma superglória: autor do primeiro gol da Turma da Colina.
Esta história começa em 1922, quando Adão Antônio Brandão chegou ao Brasil. Para os pais, um castigo, por o garoto não gostar de estudar. Preferia o que chamavam, em Portugal, de “esporte dos desocupados”, rolando a pelota com a rapaziada do Porto e do Real Grandeza. De repente, estava d´além mar. Para a sorte dele, um selecionado futebolístico de sua terra exibiu-se no Rio de Janeiro e levou a colônia lusitana a aderir ao “balípodo”, fundando os clubes Lusitânia e Centro Português de Desportos.
De nada adiantou o castigo no Adão. No Brasil havia, também, a pelota para ele chutá-la. Entrou para ao time do Centro Desportivo e, por causa de uma briga do seu time, com a turma do Lusitânia, decepcionado com a atitude dos colegas, os abandonou e mudou de lado. Para o lado do nascente Club de Regatas Vasco da Gama. E foi, então, que o destino disse-lhe: Você é o cara. Vá lá e comece a história vascaína nas redes.
Era 3 de  maio de 1916 e o Vasco da Gama estreava no Campeonato Carioca da Série C, promovido pela Liga Metropolitana de Sports Atléticos. A torcida presente ao estádio da Rua General Severiano já havia contado oito bolas mandadas ao barbante, por um adversário muito superior, o Paladino, quando Adão balançou a rede. Os adversários marcaram mais dois e enceraram a goleada por 10 x 1.
 Passadas quarenta temporadas daquele vexame, Adão relembrou – ao Nº 44 da “Manchete Esportiva”, de 22 de setembro de 1956 –,  dos apuros passados na volta a São Januário; “ ...elementos que combatiam o ingresso do futebol no grêmio cruzmaltino, abriram  a guerra franca. Fomos alvo de tremenda vaia,  acompanhada de uma chuva de laranjas...”
O Vasco seguiu perdendo os seus jogos – 13.05 - 1 x 5 Brasil; 28.05 - 0 x 4 Icarahy; 14.07 - 2 x 4 Parc Royal; 16.07 - 3 x 4 Ríver; 03.09 - 0 x 2 Paladino; 07.09 - 0 x 3 Parc Royal; 22.10 - 1 x 4 Icarahy.  Até chegar o dia  29 de outubro, quando venceu um adversário do bairro da Piedade, o River, que apresentou-se sem dois jogadores. Adão estava, também, naquele outro dia glorioso – Ary Correia, Jaime Guedes e Augusto Azevedo; Victorino Rezende, João Lamego e Manuel Baptista; Bernardino Rodrigues, Adão Antonio Brandão, Joaquim de Oliveira, Alberto Costa Júnior e Cândido Almeida foi a formação – da vitória, por 2 x 1, mas sem comparecer ao filó. Aconteceu à Rua Figueira de Melo.
 Em 5 de novembro, o time de Adão voltou vencer, mas, pelo não comparecimento a campo do adversário, o Brasil. E ele encerrou o seu primeiro campeonato em sexto luar e último lugar.  Em declaração à mesma revista, disse que a paz entre os vascaínos, após os desentendimentos, gerados pela desão ao futebol, só ocorrera um ano depois da estréia, quando o time venceu o Boqueirão – 02.09.1917 -  3 x 0 –, com o Vasco promovido, por manobra dos cartolas da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres, à  Segunda Divisão do Campeonato Carioca. “...Os rapazes do remo ovacionaram-nos e saímos numa passeata que simbolizaria a união do Vasco em torno de um mesmo ideal”.
Embora a pacificação desportiva tivesse ocorrido em setembro de 1917, o time vascaíno havia vencido três partidas, antes – 27.05 – 4 x 2 Icarahy; 10.06 -  2 x 0 Paladino; 05.10 – 5 x 2 Progresso.  Segundo Adão, quando rolava a adesão vascaína ao futebol, “ouve até quem fosse eliminado (do quadro social) pelo ‘crime’ de solicitar  tal proposta”, recordava.


Primeiro time de Adão Antônio Brandão no Rio de Janeiro, o Centro Português de Ginástica
























 

Adão atuava pelo ataque e a então chamada linha média, o que, hoje, seria uma espécie de jogador de intermediária, entre a defesa e o meio-de-campo. Após deixar o time de futebol, passou para a turma do remo. Chamado a substituir Carneiro Dias, o fez tão bem, que o presidente vascaíno, Francisco Marques da Silva, comemorou a sua grande atuação derramando champanhe sobre a sua cabeça. E o incorporou-se à galera do imbatível barco “Íbis”, campeão carioca, invicto, por 19 vezes, invicto.
Campeão nas águas, em 1919 e em 1921, Adão voltou à terra. Para as pistas de atletismo. Depois de ganhar medalhas de bronze, em provas dos 100 e dos 200 metros rasos, decidiu partir para o que os desportistas de 1922 consideravam impossível: vencer o “invencível” flamenguista Ulisses Malagutti. Foram para a pista do estádio do Botafogo, e Adão o deixou para trás, levando um dos  mais importantes dos 67 troféus que ajudara a levar para a sede da “Turma da Colina”.     

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

TRAGÉDIAS DA COLINA - BASQUETE



Foto reproduzida da Revista do Esporte
 O time masculino do Vasco tentava o bi do basquete carioca. E foi passando por quem pintou pela frente – Flamengo, Fluminense, Tijuca, Mackenzie, São Cristóvão, Municipal e Vila Isabel –, até cruzar com o Botafogo, que não carregava um caneco há 19 anos. A rapaziada ficou vice, caindo nas duas vezes em que o encarou: 62 x 58 e 69 x 60.
No primeiro desses dois jogos, o Vasco perdeu nos últimos instantes. O botafoguense Otto converteu dois lances livres e, posteriormente, roubou um passe dirigido a Sérgio, para marca nova cesta, quando a mesa de cronometragem e apontamentos fez o apito final.

O Vasco perdeu o bi com16 vitórias, em 18 rodadas, tendo Sérgio como o terceiro cestinha do certame, cravando 279 – o primeiro foi Prata, do Tijuca, com 323 pontos, seguido por Valdir do São Cristóvão, com 304. Na seleção do campeonato, o cruzmaltino presente foi Tentativa, ao lado dos botafoguenses Aurélio, Ilha e Oto (Botafogo) e do flamenguista Peixotinho. Três outros vascaíno – Sérgio, Paulista e Douglas – ficaram no selecionado B.
 
 
 
 

 
 


terça-feira, 21 de outubro de 2014

VASCO, O REI DOS REFLETORES

O Vasco é um dos clubes que mais convidado foi para inaugurar estádios – 10 no Brasil e um no exterior. Além disso, já inaugurou, também, a iluminação de dois deles – em Brasília e em Porto Alegre. É sobre este último que vamos ver o que rolou.

Era 23 de novembro de 1955 e o Grêmio Porto-Alegrense preparou um festão para iluminar o Estádio Olímpico, inaugurado dois anos antes, com capacidade para 35 mil torcedores. Como paraninfo, chamou o Vasco, que jogaria sob 114 refletores de 1.500 watts, que proporcionariam um volume excepcional de 215 mil watts. O convite era uma prova do prestígio que o time cruzmaltino tinha na capital e no interior gaúcho, onde sempre vencera, ou empatara, desde 1945, quando viajava com um dos times mais fortes do planeta, o apelidado “Expresso da Vitória”. Até então, a “Turma da Colina”, além dos convidantes, já enfrentara Internacional, Renner, Cruzeiro, Pelotas, Rio Grande, Rio Gandense, São Paulo, Floriano e um combinado de Livramento, jamais saindo de campo atrás no placar.


Quando chegou a Porto Alegre, o Vasco era um time cansado. A maratona da temporada-1955 já lhe fizera entrar em campo para outros 30 amistosos, no Brasil e no exterior, além de ter encarado mais 22 compromissos pelo Campeonato Carioca. Naquele 23 de novembro, o Vasco liderava o Estadual-RJ. No entanto, naquela jornada, o goleiro Hélio esteve irreconhecível, bem como o lateral-direito Paulinho de Almeida e Maneca, que fora escalado na chamada linha média, defendendo, já que o seu forte era buscar o gol. Resultado: Vasco 0 x2, perdendo a invencibilidade nos Pampas. Antes, havia feito dois amistosos contra os gremistas, goleando-os, por 6 x 1, em 18 de março de 1945, e empatando, por 0 x 0, em 10 de abril de 1952.
Noite da "perda da virgindade" no Sul
Vasco 0 x 2 Grêmio-RS teve apito de Arthuyr Villariño e gols marcados por: Juarez, aos 34 minutos do primeiro tempo e aos 29 da etapa final. O time teve: Hélio, Paulinho (Coronel), Haroldo e Beto; Maneca e Orlando; Pedro Bala, Válter (Iedo) , Ademir Menezes , Pinga (Alvinho) e Sílvio Parodi. O Grêmio formou com: Sergio, Figueiró, Aírton e Dinhaa; Caslveti (Elton) e Ênio Rodrigues;Chico Preto, Milton, Juarez, Itamar (Giovani) e Vieira.
Confira os estádios e refletores inaugurados pelos vascaínos: 27.04.1927 – São Januário (Vasco 3 x 5 Santos)
19.06.1932 – Salles Oliveira, em Juiz de Fora (Vasco 1 x 1 Tupy)
04.09.1938 – Gávea (Vasco 2 x 0 Flamengo)
06.04.1947 – Mourão Filho, na Rua Bariri-RJ (Vasco 3 x 4 Fluminense)
10.06.1951 - Fonte Luminosa, em Araraquara-SP (Vasco 5 x 1 Ferroviária)
11.1955 – Refletores do Estádio Olímpico, em Porto Alegre-RS. Vasco 0 x 2 Grêmio-RS
10.06.1956 – José Alvalade, em Lisboa (POR) –Vasco 3 x 0 Sporting-POR 02.10.1965 - Luso Brasileiro, na Ilha do Governador-RJ (Vasco 2 x 0 Portuguesa-RJ)
31.03.1966 – Refletores do Estádio Nacional de Brasília (Vasco 2 x 1 Flamengo)
06.11.1966 – Lomanto Júnior, em Vitória da Conquista-BA (Vasco 1 x 2 Flamengo)
13.11.1967 – Jóia da Princesa, em Feira de Santana-BA (Vasco 1 x 0 Flu de Feira)
04.06.1972 – Machadão em Natal-RN (Vasco 0 x 0 Seleção Olímpica Brasileira)
15.11.1983 - Ressacada, em Florianópolis-SC (Vasco 6 x 1 Avaí) (foto reproduzida da "Manchete Esprotiva" Nº 2).


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O SENCACIONAL VAVÁ

O glorioso Edvaldo Izídio Neto, que a torcida conheceu pelo apelido de Vavá, o “Leão da Copa”, autor de cinco tentos no Mundial da Suécia-1958, contou ao ex-almirante Vasco Vasconcelos ter marcado o seu gol “mais + mais” pelos gramados dos “gringos”. E não for durante a disputa da Taça Jules Rimet. Segundo ele, acontecera diante do alemão “FC 04”.
Vavá narrou assim o tento, quando já defendia o espanhol Atlético Madrid: “...peguei a bola, sem jeito, na altura da linha média adversária. Senti vontade de disparar, num ‘rush’, mas mudei de idéia, repentinamente. Enfiei o pé e confesso que não esperava obter êxito... o goleiro não fez muita fé... e foi surpreendido. Até eu mesmo fiquei estupefato..”
VASCO VASCONCELOS COMENTA – Vavá enganou-se sobre o adversário. Como FC 04, ele deveria estar pensando no Schalke 04, que jamais encarou o Vasco. Durante o tempo em que ele vestiu a jaqueta cruzmaltina, a rapaziada só jogou uma partida em gramados alemães, em 12 de maio de 1956, vencendo o Rot-Weiss Essen, por 2 x 0. Depois daquilo, só voltou a pegar  um time alemão, em 9 de junho de 1959, quando ele não era mais um vascaino. 
Diante do Rot-Weiss Essen, os gols foram marcados por Valter Marciano e Djayr, Vavá nem jogou. O time teve: Hélio; Paulinho de Almeida, Haroldo, Orlando, Laerte e Coronel;  Sabará, Livinho, Ademir Menezes, Válter  e Djayr.
O mais provável é que o gol  atribuído por Vavá ao jogo na Alemanha,  tenha sido marcado na Inglaterra, em 5 de maio de 1956, em Vasco 2 x 0 Sheffield Wednesday – o outro tento foi de Livinho e o time formou assim  Hélio; Dario, Haroldo, Orlando, Laerte e Coronel; Maneca, Livinho, Vavá Ademir e Djayr.
Uma outra possibilidade é que possa ter sido marcado 21 dias depois, em Vasco 2 x 1 Racing Léns, na França. Isso porque ele não foi às redes em 8 de maio, no 1 x 1 com o sueco Malmoe, o jogo anterior ao embate contra o Rot-Weiss, e nem no posterior, passados 15 dias, em Vasco 4 x 1 Racing Club da França. 
CORREÇÃO DA VERDADE – Vavá e Vasco Vasconcelos viajaram. Vavá confundiu o time alemão com os aspirantes do Botafogo. Os dois tentos foram muitos parecidos, “iguais-zíssimos”. Só que o primeiro rolou pelos idos de 1952, quando ele estava começando a botar goleiros pra chorar, usando a gloriosa jaqueta da “Turma da Colina”. Neste lance, a bússola do ex-almirante desarvorou a do “Almirante”, nas longitude, latitudes e atitudes.    

domingo, 19 de outubro de 2014

O VENENO DO ESCORPIAO - A FOTONOVELA

  As fotonovelas italianas vendiam bem no mercado brasileiro. Mas eram muito caras. Então, o “Titio” Adolpho Bloch – como os empregados da Editor Bloch o chamavam –  resolveu produzir as dele. Nos meios de papos com a sua galera do departamento financeiro, alguém sugeriu-lhe falar com o amigo Roberto Marinho e contratar atores menos famosos da TV Globo a preços mais baratos, para não deixar a revista Sétimo Céu parar com as fotonovelas. O Doutor Roberto, liberou campo livre e a galera de menos  fama, pra morder uma graninha por fora, levava até as roupas usadas nas gravações globais.

– Adolpho! É até um favor que você me faz. Esta moçada vive me chamando pão-duro, reclamando da holerite. Não posso lhes pagar o que ganham Tarciso Meira e Regina Duarte, que levantam minha audiência, me rendem muita publicidade. Acerte com eles – respondeu o “Doutor” Roberto Marinho, que havia sido repórter de jornal e conhecia bem todos as choradeiras de quem vivia reclamando do salário.

La bela hermana Irma Alvarez
Começou, então, La bela hermana Irma Alvarez a Editora Bloch as suas produções com os “menos famosos” da Globo, para a revista Sétimo Céu. Lá pelas tantas, um produtor achou de fazer uma novela com uma atriz famosa. E sugeriu Irma Alvarez, que havia estrelado, em 1957, a primeira fotonovela feita nesse país e que faria o papel de moça pobretona atropelada por um ônibus que a deixava paralítica mas, mesmo assim, o namorado decidia se casar com ela.

Irma Alvarez era uma morenaça argentina que apaixonara-se pelo Rio de Janeiro e naturalizara-se brasileña. Sonhada, paquerada por dez em cada nove cavalheiros brazucas, causava pânico quando desfilava de biquíni, em 1959, durante programações do Hotel Copacabana Palace. Era paparicadíssima pelo maior diretor de shows cariocas – Carlos Machado –  e pelos grandes diretores cinematográficos da década-1960 – Paulo César Saraceni, Domingos de Oliveira, Jece Valadão, Bruno Barreto e Roberto Farias -,  tendo, com Gláuber Rocha, atuado em sua obra prima, Terra em transe, de 1967.  Antes, em 1962, trabalhando em Porto das Caixas, fora eleita melhor atriz do ano - na TV, brilhou desde 1963.

Rola o tempo. Convencido o “Titio” a liberar a grana para a contratação da hermana, a produção da novela negociou com as autoridades do trânsito carioca para desviar os automóveis de uma parte da Avenida Niemeyer, no Leblon. Conseguido isso,  escalaram os fotógrafos Nílton Ricardo e Gervásio Baptista, para dois não deixar estourar o tempo tratado com o pessoal do DETRAN.

 Foi, então, a moçada  para o fechamento da produção. Os fotógrafos encheram a cara da atriz de um sangue composto por anilina, glicerina e chocolate, para obtenção de melhor qualidade nas fotos do acidente, e rolou  fotografagem. Rapidão, o local ficou repleto de curiosos, não demorando até mesmo a aparecer uma ambulância do Hospital Souza Aguiar, que passava por perto e foi chamada pela moçada que curtia o trabalho da rapaziada do "Titio".

Até ali, nada de menos, ou de mais. Só que, ao saber do que se travava, a moçada da ambulância ficou uma fera, achou ter sido feita de palhaço e partiu para o maior bate-boca com a turma da fotonovela. Nisso, a bela  Irma Alvarez vai se levantando do chão, deixando as coxas, generosamente, ao deleite da galera, que ficou estática, com os olhos pregados em sua calcinha. Ameaças e xingamentos cessados, pelo lance da peça íntima da hermana, o fotógrafo Gervásio Baptista falou pra moça:

– Irma! Eu já contava ter os meus dentes quebrados pelos enfermeiros, mas a sua calcinha branquinha salvou a minha cara - ao que ela contra-atacou: "Pois quem vai quebrar os seus dentes, agora, sou eu, seu indecente".

E entre  dentes, calcinhas e indecências, em pé de guerra, ainda deu pra fotografar o final da fotonovela, com um beijo entre a atriz famosa e o modelo Jefferson Dantas (ator principal da trama).

     OBS: ESTA HISTÓRIA ME FOI CONTADA POR GERVÁSIO BAPTISTA

Texto publiado pelo Jornal de Brasília de 04.05.2025 e trazido para cá pelo Túnel do Tempo.