Passado pouco mais de um mês que o treinador brasileiro Oto Glória dera um nó tático na Seleção Brasileria e a eliminara da Copa do Mundo da Inglaterra, Dondinho já estava, novamente, diante do seu rádio, torcendo pelo filho que jogava no exterior. Na parede da sala de sua casa, o calendário marcava 21 de agosto de 1966. Ele e o sempre parceiro de audições de transmissões esportivas em jogo do filho, o cunhado Jorge, lavaram a alma com a goleada por 4 x 0, sobre a base da seleção de Portugal e com um gol do Dico. Dias depois, o jogo seria contra a italiana Internazionale, de Milão.
Pelé descansava no hotel, em Nova
York, quando o telefone do seu apartamento tocou. Era um velho amigo de São
Paulo, o jornalista Orlando Duarte, que cobrira a sua careira desde as primeiras
disputas pelo Santos. Contou-lhe:
- Sabe quem está aqui na cidade, e me
demonstrou o desejo de ir ao jogo?
- Não imagino - respondeu Pelé.
- Um velho amigo meu e seu - deixou no ar, Orlando.
- Não tenho ideia, mesmo – respondeu,
o Pelé.
- O presidente Juscelino Kubitscheck,
grande brasileiro e grande conterrâneo mineiro (do Pelé). Quero combinar um
lance contigo. Seguinte: quero que você peça à chefia da delegação para o
ônibus passar no hotel onde ele se encontra hospedado, apanhá-lo e levá-lo ao
estádio conosco. Estarei por alí, no momento da saída. E deixe o resto por
minha conta. Vou pedir ao pessoal do serviço de som do estádio para anunciar
que o ex-presidente brasileiro Juscelino Kubitscheck está no estádio como convidado
do time do Santos. Um pedido desses partindo do Pelé, tem uma outra dimensão,
não é mesmo?
- Será uma hora para o Santos levar o
JK ao estádio. Tenho a certeza de que não haverá objeções da chefia.
E não houve. Na hora combinada,
Orlando apanhou o JK no hall de entrada do hotel onde se hospedava e o conduziu
até o ônibus dos alvinegros. Assim que ele entrou, foi aplaudido. Pelé estava
na entrada do corredor, para abraçá-lo. JK agradeceu os aplausos da equipe e
aceitou o convite do "Rei do Futebol" para sentar-se em uma cadeira
solitária, do lado direito e diante da porta que separava os passageiros do
motorista.
O time do Santos preparava-se para
entrar no gramado do Yank Stadium, em um bairro predominantemente habitado por
imigrantes italianos. O gramado era usado por times de beisebol e a partida
recebia uma assistência de 44 mil torcedores, algo inimaginável para o futebol
nos Estados Unidos. Quando Pelé pisava o pé direito no gamado, os auto-falantes
anunciaram:
- Presente ao Yank Stadium, o
ex-presidente do Brasil, o senhor Juscelino Kubitscheck de Oliveira.
Imediatamente, aplausos dos
torcedores brasileiros ensurdeceram o estádio, acompanhados pelas também
efusivas palmas dos italianos. Quando a bola rolou, Pelé marcou.... gols e o
Santos golrou, por 4 x 1.
Em Santos, Dondinho ia ás lágrimas. A
emoção de ouvir pelo rádio que o seu filho fora apanhar JK no hotel para
levá-lo ao jogo era forte demais.
- Para mim, foi um dos maiores
brasileiros, Jorge. Junto com Santos Dumont, Oswaldo Cruz, Machado de Assis,
homens que admiro. Só um macho com o peito dele poderia levar a capital do
Brasil para um interior tão inóspito, como era o sertão de Goiás. É um dia de
muit orgulho para mim, cunhado. Aqssim como no dia em que votei ele para
presidente da república.
Enauanto Dondinho emocionava-se, o
ônibus do Santos rolava pelas ruas de Nova York, com destino ao hotel onde o JK
hospedava-se. Ao parar no destino, os jogadores começaram a cantar: "Com
pode o peixe vivo/Viver fora da água fria/ Jota Ká tá lá e cá/ Jota Ká tá lá e
cá/Eu não posso mais viver sem a sua companhia".
O ex-presidente saudou a equipe,
lágrimas escorriam também dos seus olhos. Abraçou o conterrâneo Pelé, fez mais
um aceno para o time e desceu a escadinha do ônibus, acompanhado por Orlando
Duarte. Da porta do hotel, fez o último aceno.
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