Vasco

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domingo, 15 de janeiro de 2017

KIKE EDITORIAL - TREM DANADO - 4

  Quando o patrão queixava-se que a grana havia sumido da praça, o caboclo lá do sertão da Bahia disse-lhe:
- Doutor! Terra onde não tem “muié-dama” não corre dinheiro. O “trem” delas é danado demais!
Parece que o caboclinho tinha (ou ainda tem) razão. Quem quiser tirar as provas é só dar uma viajada nesse tempão de meu deus (gíria baiana), ir até o ano  2.340 antes de “Jisus”, como pronunciava o caboclinho. Foi por ali que um “sujeitin discarado” damiou uma sacerdotisa, em Azupiranau, às margens do Rio Eufrates, na Mesopotânia (atual Iraque), e  sumiu de circulação, de modos que o filho Sargão jamais “shakes hands” com ele. Então, sem mensalão para criar o barrigudinho, a mãe colocou-o em uma cesta de vime e soltou-a na correnteza do rio, onde o aguardeiro do palácio real a encontrou e fez do garoto seu filho adotivo. Ensinou-lhes ofícios e, quando ele já era um rapagão, arrumou-lhe o emprego de copeiro do rei.
O jovem Sargão tornou-se um belo rapaz e ganhou a simpatia de Ishtar, mulher detentora do maior potencial erótico do pedaço, capaz de ajudar os seus chegados a se tornarem reis. Se bem que Sargão fez a parte dele, quando guerreiro, conquistando a Suméria e tornando-se rei absoluto da Mesopotâmia, o que rolou mais tesão ainda em Ishtar.
 Sargão, no entanto, pisou na bola, não ensinando as manhas da sacanagem ao seu neto Naram-Sim, que ainda pegou Ishtar dando um caldo. Como avô já fora de cena, o incompetente carinha desviou oferendas divinas para a sedutora coroa e, por praga dos sacerdotes, viu o seu império ruir,  em 2.193 AC, derrubado pelos gutis, da Baixa Mesopotânia. Tudo por causa de um “trem danado”. E de uma “véa” assanhada. Confere?
  Mas ninguém se estrepou mais, por causa “daquilo” do que Lucius Domitius Ahenonbarbus. História complicada. Pra começar, a sua  mãe Agrippina, casada com Gnaeus Domitius, tinha um “trem” que emprestava ao  irmão, amante e Imperador Gaius Caesar Germanicus, mais conhecido da galera  por Calígula, que não tinha herdeiros. Mafiosa, “Agrippa” começou a conspirar contra o parceiro de cama. E se deu mal. Terminou exilada onde hoje fica a italiana Sicília. Enquanto curtia um tempinho fora, porém, o seu chifrudo marido bateu as botas e o depravado Calígula foi assassinado. Moral da história da Roma antiga: o trono sobrou para o seu sobrinho Tiberius Claudius Nero Caesar Drusus. Que legal!
  De volta a Roma, sem Caligula, a esfuziante Agrippina aplicou um golpe no ricaço Gaius Sallustius Passienus Crispus. Casou-se com ele, o envenenou, ficou com a grana e passou a ceder o seu “trem danado” ao sobrinho e Imperador Tiberius. Este foi na sua conversa durante os “rasgas fronhas” e tirou a sua esposa Messalina da jogada, condenada a visitara o além, como conspiradora.  
 Era 49 depois de “Jisus” e a terrível e então nova (quarta) esposa de Tiberius foi para o próximo golpe. Seu filho Lucius Domitius Ahenonbarbus estava com 13 anos de idade e, por ser mais velho do que Britannicus (rebento legítimo do soberano),  passou a ser o primeiro aspirante ao trono romano, caso o Imperador faltasse, evidentemente. Nada do que a insuperável mafiosa “Agrippa” não pudesse resolver.
Como adoção era comum pela elite romana, Lúcios virou Nero Claudius Caesar Drusos e o xodó do papai adotivo, que deu-lhe maioridade, aos 14, e casou-o com a sua filha Octavia. Passados cinco trepidantes temporadas do casório com o Imperador, o “Cine Roma” exibiu uma reprise, na sessão da tarde, película em que Agripina, pela segunda vez, matava o marido. E o “zebrão” Nero subia ao trono. Beleza! – para a curriola deles.
 Durante o primeiro lustro do reinado do novo Imperador, ele só queria saber de corridas de bigas e de orgias. Dançava o que tocava e era mais inofensivo do que o ataque do Vasco do final do Brasileirão da Série-B-20016. Com aquilo, Agrippina mandava em Roma. Até o dia em que Nero conheceu a escrava Claudia Acte, requisitou o seu “trem” e gostou tanto que apaixonou-se por ele. Só que o trem descarilou. Sua velha quis esganá-lo e passou a conspirar para derrubá-lo e colocar o fantoche Britannicus em seu lugar.  Matar por matar, Nero matou primeiro –  os dois. De quebra, matou, também, a esposa Octávia. Tudo por causa de um “trem descarrilado”.      
 Mas nem só o “Cine Roma” exibia filmes sobre “trem trepidante”. O “Cine Brasília”, por exemplo,  já colocou em cartaz um alucinante. No roteiro, o Senador que mandava no barraco traçava uma moça televisiva e fazia-lhe um rebento, mantido  às custas de dinheiro dito politicamente nada correto. Ligeiramente! Era apeado do cargo, mas, na continuação da fita, voltava ao poder e dava uma de Imperador, incluindo um nó na “Dona Justa”, que teve de negociar os seus caprichos.
Convenhamos: o mundo é mesmo, indubitavelmente (termo registrado), uma aldeia de atitudes contínuas.  O que acontecia na Mesopotânia, há 4.356 anos, ainda acontece em Brasília.

 PRÓXIMO EDITORIAL? DIA 20. TEMA: NÉLSON RODRIGUES

    

           

 

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