Vasco

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

KIKE EDITORIAL - RUY BARBOSA-6

   O brasileiro adora criar mitos. Até locutor de TV que só faz ler textos que ele não escreve, vai pra capa de revistas. Um dos mitos não merecedores nome de rua e de estátua em praça pública é Ruy Barbosa (1849 a 1923). Sujeito preconceituoso, foi chamado de “Águia de Haia”, pela megalomania brasileira, por fazer um discurso bem aplaudido durante a Conferência da Paz, em 1907, na Holanda, quando defendeu a igualdade entre os estados. Mas todas as demais falas da sessão do dia foram aplaudidas. Era protocolar.
Comparado a baianos de imaginação criativa, como Jorge Amado (1912 a 2001), Anísio Teixeira (1900 a 1971) e Cosme de Farias (1875 a 1972),  para citar poucos, Ruy não passa de um “xuré”,  pássaro do tamanho de um canário e que que ninguém cria. Da mesma forma, ninguém pesquisa a sua obra, editoras não a relançam e nenhum universitário desenvolve teses de mestrado sobre ele, que tem um livro chamado “Oração aos Moços”. Quem era advogado de um dos maiores picaretas que já pintou por estas plagas, o empresário norte-americano Percival Faquhar (1864 a 1953), poderia ensinar o quê à rapaziada?
Ruy Barbosa, o primeiro ministro da Fazenda do primeiro governo republicano (iniciado em 1889), foi demitido, pelo presidente e marechal Deodoro da Fonseca (1827 a 1892), por não comparecer à  reunião na qual seria analisado um empréstimo ao Rio Grande do Sul. Enviou uma carta com o seu voto, inaceitável para o homem que derrubou o Império. E o pior: antes de ser demitido, Ruy tornou-se o pai da inflação no Brasil, sobrando, ainda, para o segundo governo da República, do também marechal Floriano Peixoto (1839 a 1895).          
Em 17 de janeiro de 1891, o ministro Ruy Barbosa criou facilidades para a organização de empresas e autorizou os bancos a emitir papel-moeda sem lastro em ouro e prata. Resultado: provocou uma tremenda especulação financeira, inflação galopante e a quebra de grande número de investidores. Ficou com a reputação, enormemente, manchada, por tentar copiar uma lei protecionistas, de 1862, dos Estados Unidos e que fora tentada, também, pelo seu antecessor, o monarquista de Afonso Celso de Assis Figueiredo,  o Visconde de Ouro Preto (1836 a 1912). Onde estava a inteligência da “Águia de Haia?” No bico do xuré, certamente,  pois o governo republicano perdeu o controle sobre os papéis emitidos, a circulação de papel-moeda cresceu 75% e os especuladores roubaram o povo, criando empresas que só existiam no papel.     
O ato do ministro Ruy Barbosa abalou todo o Brasil republicano e quase quadruplicou a desvalorização da nossa moeda, em relação ao dólar norte-americano. Ruy parecia não se lembrar que a escravidão acabara pouco tempo antes por aqui e que, pela maior parte  imperial, o povão vivia do escambo, de favores, da caridades e de esmolas, sem costumes monetários.  A sua atuação ministerial valeu-lhe, mais tarde, a derrota para Hermes da Fonseca, quando ele tentou ser presidente da República, em 1910.    

PRECONCIETUOSO – Convidado, em 1916, pelo governo do presidente Venceslau Brás (1868 a 1966) a chefiar a nossa delegação que participaria dos festejos dos 100 anos da constituição argentina, Ruy Barbosa excedeu. Recusou-se a embarcar no navio que levaria o selecionado brasileiro de futebol. Não aceitava misturar-se aos “futeboleiros”. De nada adiantaram os esforços do chanceler Lauro Müller (1863 a 1926) e do aviador  Santos Dumont (1873 a 1932) para ele abandonar tal postura.
Devido ao deselegante comportamento de quem se achava melhor do que atletas de futebol, o selecionado teve de embarcar em um trem  e passar quatro dias viajando, inclusive, passando pelas terras que Percival Faquhar arrendara e onde posseiros que resistiram à expulsão levaram balas mandadas pelo mesmo Exército que conquistara o respeito do povo, devido a atuação na guerra contra o Paraguai (1864 a 1870).
 Entre os jogadores de futebol que Ruy desprezou estava um, Marcos de Mendonça (1894) a 1988), o goleiro, filho da elite carioca. Todo o dinheiro da família do preconceituoso baiano não encheria o bolso de trás da calça de um membro da família Mendonça. Mais tarde, Marcos – além de jogador de futebol, foi escritor de livros de história – confirmou, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, no Rio, aquela atitude de Ruy Barbosa que, enquanto estava instalado, confortavelmente, em um hotel de Buenos Aires, um dos seus desprezados, o futebolista Sylvio Lagreca, pulava, heroicamente, sobre  um mastro e resgatava a bandeira brasileiro que pegava fogo. Quem foi mais importante para o Brasil? 
  Uma outra marca do preconceito de Ruy Barbosa estava no vocabulário da língua portuguesa. Inacreditável! Ele criticava Eça de Queiroz (1845 a 1900) por usar palavras francesas, tais como envelope, detalhe e massacre, incorporadas pelos dicionários do nosso idioma. Quem era ele, como autor de textos, para  condenar José Maria de Eça de Queiroz? Pelo menos, não teve inteligência para escrever livros aplaudidíssimos – alguns tornaram-se filmes do cinema e seriados da TV –, como “A Relíquia”, “O Crime do Padre Amaro” e “O Primo Basílio”. Pois bem! “Orações aos Moços”, nem em sebos da Bahia se encontra. Ou alguém  já viu alguma obra de Ruy filmada?  
 Uma pessoa mantendo preconceitos contra estrangeirismos em seu idioma, dificilmente, se entenderia com os seus interlocutores no mundo atual. Será que Ruy Barbosa não sabia que a chegada de vocábulos a outros idiomas sempre se deu pelas migrações de pessoas e a circulação de componentes culturais? Entre os séculos 13 e 15, os responsáveis foram os invasores mouros, na Península Ibérica. Nos 14 a 17, a vez foi de palavras usadas  na arte e na arquitetura italiana, na fase chamada  por “Renascimento”. No 19 e nas primeiras décadas do 20, no tempo de Ruy, era a França quem cedia palavras ao português. Hoje, é a linguagem norte-americana dos computadores.
 Proteger o idioma nacional de estrangeirismos está na história como atitude de ditadores. Adolf Hitler (1889 a 1945), na Alemanha nazista, Benito Mussolini (1883 a 1945) na Itália fascista e, mais recentemente, Mahmoud Ahmadinejad, no Iran, fizeram isso. Em 1994, na França, o ministro Jacques Toubon fez o mesmo, e a lei foi até sancionada pelo presidente François Miterrand. Mas terminou ridicularizada pelo povo, porque vários artigos eram inconstitucionais. No Brasil, o autor da ideia enviada à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara foi o então deputado Aldo Rebelo, do Partido Comunista e que foi ministro do Esporte, nomeado pelo aliado  Partido dos Trabalhadores-PT.         
 Dizia o escritor Antônio Cândido – autor do cinematográfico “O Coronel e o Lobisomen” e membro da Academia Brasileira de Letras – que a língua deve ser aquela que o povo fala. E,  hoje, não há como barrar o rumo do idioma na direção do que é falada pelas ruas. O estrangeirismo enriquece o léxico. Nacionalismo linguístico é parvoíce, palavra que está no Novo Testamento e que, no idioma grego, significava insensatez – menos para Ruy Barbosa, o PT e o Partido Comunista.   

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