Vasco

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sábado, 8 de abril de 2017

KIKE EDITORIAL-18, OU O VENENO DO ESCORPIÃO - O PERIQUITO VIROU POETA

  Filho de um antigo centroavante do Luso Brasileiro Futebol Clube, o bom de bola Newton Ferreira, que chegou a ser campeão estadual e integrou o selecionado maranhense do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais-1929, o poeta Ferreira Gullar, com certeza, não herdou o gen desportivo do seu glorioso pai. Bem que ele tentou, no campo de pelada do Ourique, em frente ao Mercado Novo de São Luís do Maranhão, defendendo o time infantil do Ferroviário Futebol Clube.
 Ainda não havia o termo “simancol”, receita recomendadas aos desassuntados. Mas, para o nosso gáudio, a bola livrou-se de um deles bem antes de ele “se mancar” que não reunia nenhum pendor para o ludopédio. Foi quando, disputando um lance, levou uma rasteira caprichada, caiu de bunda no chão e quase quebrou o espinhaço. Santa bundada! – o futebol brasileiro perdeu um tremendo perna-de-pau e as letras nacionais  ganhar um esfuziante cracasso.
Credito da imagem inserido dentro dela.Agradecimento.  
 O futuro poeta e já “peladeiro desistente”, no entanto, não desistiu do futebol, completamente. Sempre que podia, nos papos de bola com os amigos, deixava transparecer que o seu pai fora um terror, da meia-lua da grande área pra frente. E, e até, sido recebido pelo Presidente da República – Washington Luís –, no Palácio do Catete, quando o selecionado maranhense excusionara ao Rio de Janeiro.
  Fora das quatro linhas, José Ferreira adentrou ao campo dos livros, enquanto um dos ex-colegas de bola encantava quem o via rolar a “maricota”. Aos 21 anos de idade, ele mudou-se para a Cidade Maravilhosas e maravilhou-se com o time do Vasco da Gama – campeão estadual-1945/47/49/50 e sul-americano-1948. Já nem se lembrava mais do apelido de “Periquito”, dos tempos de garoto peladeiro. Jogava botões com a sua "patota" – sempre e sempre – tendo o escudo vascaíno. E torceu pelo “Almirante” sem se importar que Ademir Menezes, Ipojucan, Danilo, toda a “Turma da Colina” carregasse no peito a Cruz de Cristo, quando ele já ameaçava encorpar as hostes comunistas. Mas manteve-se fiel  às suas ideologias desportivas, cruzmaltinandos, enquanto esteve por este planeta – até 4 de dezembro de 2016.
  Como a maioria dos maranhenses de boa cepa, o José filho do atacante Newton Ferreira, também tinha um Ribamar após o seu pré-nome. Era, no registro civil, José Ribamar Ferreira, nascido em 10 de setembro de 1930, na “Ilha do Amor”, como a rapaziada de sua terra chama São Luís do Maranhão – e deve ser mesmo, pois as suas morenas são de uma energia impressionante, o que posso provar, porque sou casado com uma delas e passo atestado de garantia do produto.
Bola vai, amor vem, enquanto o glorioso Zé de Riba vivia expulso até de um eventual banco dos reservas em um despretencioso convescote, ele passou a tirar as mais interessantes prosas e versos de suas "cabeçança". Aliança com a poetiza intuição. Tornou-se Ferreira Gullar, sujeito comunista moreno e exilado político verde-e-amarelo. Jamais desligou-se de suas origens.
Canhoteiro era o Garrincha da ponta-esquerda.
Reprodução de gazetapress.com.br .Agradecimento
 Rola a bola e, entre poesias e notícias de jornais, Ferreira Gullar, muito anos depois, lá pelos dourados 1958,  tomou conhecimento de que Canhoteiro era ídolo da torcida do São Paulo Futebol Clube, um exímio driblador e estava defendendo a Seleção Brasileira. No ato, imaginou que o velho amigo seguia com o seu espírito moleque das peladas maranhenses, quando prendia a ponta da camisa em uma das mãos, enfiava dois dedos na boca e saía driblando quem pintasse pela frente, não deixando um marcador em pé. Lembrou até das manhãs em que ia para o colégio e, antes, quebrava o jejum na banca do Seu Cecílio, o pai de Canhoteiro, que vendia mingau de milho e tapioca, no mercado de São Luís.
O poeta lia que o seu velho amigo jogava tanto quanto Garrincha. Que beleza! Haviam trocado passes antes da fama dele. Ferreira Gullar só não leu que Canhoteiro era tão desligado e irresponsável quanto o Mané. Chegava a desprezar a Seleção Brasileira, para não ter que jogar sério, o que podia fazer em seu clube. Tão irresponsável que, quando ficava no banco dos reservas, usava só o agasalho. Quando era chamado para entrar em campo, corria para o vestiário e pedia preciosos minutos colocando chuteiras e meiões. Chegou a fazer isso, também, defendendo o escrete nacional.  
Passou-se mais um tempinho e o poeta contou ao cronista esportivo Armando Nogueira do seu passado de “maltratador de bola”. Armando marcou em cima. Assim que Canhoteiro foi jogar no Rio, ele procurou-lhe na concentração do São Paulo e falou-lhe do sucesso literário do seu conterrâneo Ferreira Gullar. Canhoteiro ouviu, calado, parado, e, instantes depois, indagou:
“O Periquito agora é poeta?” – realmente, era o Garrincha da ponta-esquerda! 

 

      

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