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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

HISTÓRIAS DO KIKE: ENALDO E APANÁ

                                                             ENALDO

 1 - Enaldo Rodrigues encerrava a carreira de atleta meio-campista pelo Galícia, lá pelos longínquos 1967/68, disputando o seu último Campeonato Baiano. De repente, o presidente do clube, Raul Bulhosa y Bulhosa, achou que o veterano  jogador deveria ser, também, o treinador do seu time – começaria a partida no banco dos reservas e entraria em campo quando as coisas estivessem complicadas.

 Bulhosa, que gostava de sentar-se, também, no  banco dos reservasquando não estavas satisfeito como rendimento do time, chamava o massagista Secundino das Virgens e passava instruções os jogadores. Enaldo fazia de que não via, estava surdo. De repente, perdendo a paciência, Bulhosa determinava:

- Enaldo! Entre aí nesse meio-de-campo, pra ver se você dá um jeito nessa rapaziada. A moçada, hoje, tá mais molde do que angu - e o treinador Enaldo virava jogador pra cumprir as ordens do presidente.

 Durante um jogo, em Vitória da Conquista, houve um pênalti a favor do Galícia, faltando poucos minutos para o final da pugna. Sem deixar Enaldo nem fazer o aquecimento, Bulhosa ordenou que ele solicitasse substituição ao árbitro Clinamute Vieira França e executasse a cobrança, pois o cobrador oficial, o centroavante Ouri, havia desperdiçado dois, ultimamente. Enaldo obedeceu ao homem, entrou nas quatro linhas e bateu o penal. Até aí nada que os ouvintes da Rádio Sociedade da Bahia não estivessem acostumados a ouvir. Só que a bola fez uma tremenda curva e bateu na rede, pelo lado de fora. Inédito,  em qualquer parte do planeta. 

- Enaldo! Você tem carta branca. Não se preocupe. Acontece! – gritou o Bulhosa, só não explicando que o Enaldo tinha carta branca pra sentar-se na ponta, no meio ou até ficar em pé do lado do banco.

2 – Toninho Baiano (Antônio Dias dos Santos) era um touro de tão forte que se mostrava. Residia da Ilha de Itaparica – onde nascera, em 07.06.1948 -, pegava o ferry boat, pulava fora em Salvador e ia, de bicicleta, para os treinos do São Cristóvão, o Tricolor Mirim da Bahia, time do qual ele, o goleiro Mamoeiro e o centroavante Ventilador eram os maiores cartazes.

 Entusiasmado com a bola o Toninho jogavaRaul Bulhosa Y Bulhosa o contratou para tomar conta da lateral-direita do Galícia. Em 1969, o negociou, com o Fluminense-RJ, e o rapaz foi campeão carioca-1971/73/75. Em 1976, foi para o Flamengo, ser bi estadual-19878/79. Foram 238 jogos, 160 vitórias, 53 empates e 25 gols rubro-negros. Disputou a Copa do Mundo-1978, na Argentina, e, em 1979, esteve no Al Nasser, de Saudi Arábia. Em 1980, encerrou a carreira, pelo Bangu.

 Em 1999, Toninho foi convidado por João Jerônimo de Moura (o centroavante Joãozinho), maior goleador da história dos Campeonatos Candangos de Futebol, para treinar o time do Brazlândia. Topou e, no dia da sua estreia, houve um pênalti para o seu time, com placar no 0 x 0, aos 40 minutos do segundo tempo.  Toninho lembrou-se dos seus tempos com Raul Bulhosa y Bulosa mp Galícia e gritou:

- Chefe! Bate você.

 - Eu?  indagou, no grito, o presidente Joãozinho, que em seus tempos de goleador do Taguatinga Esporte Clube fora convocado e jogara pela Seleção Brasileira de Novos-1986, junto com Jorginho Amorim e Dunga, entre outros,.

- Sim, chefe! Quem é o chefe aqui? Você, o presidente - havia um folclore dando conta de que "pênalti é coisa tão importante que deve ser batido pelo presidente do clube". 

Joãozinho, camisa 9 do Brazlândia ajeitou a bola na marca fatal, partiu para a execução, acertou a rede e correu para abraçar o Toninho Baiano, sendo visto pelos milhões de telespectadores do Jornal Nacional da TV Globo.

 Graças ao Toninho Baiano, o matador Joãozinho ainda é o único presidente de clube a marcar gol cobrando pênalti em jogos do futebol profisisonal brazuca.

                                                    APANÁ SUVELA

  m 1968, durante a última temporada em que residi na Bahia, o time do Galícia tinha um lateral-direito morenão apelidado por Apaná Suvela. Jogava duro, duríssimo, espantando atacante adversário que se atrevesse a encvarar-pohe  em disputa de lance. Mas nunca o vi  matando ninguém. O locutor França Teixeria, da Rádio Excelsior de Salvador, se referia a ele, bordejando: “Apaná Suvela, o homem que joga com capa de pneu na canela” - ainda não havia as atuais e modernas caneleiras de plástico.

Pra se segurar nas bolas divididas, Apaná descobriu uma outra utilidade nos pneus largados pelos cantos das borracharias e os cortava com  faca afiada, estilete, o que pudesse, até uma suvela. Sujeito de famlia pobre, ele não conhecia os pontos glamurosos de Salvador e, quando estava concentrado, o seu passatempo predileto era ouvir do presidente do Galícia, Raul Bulhosa Y Bulhosa, seu maior fã, as histórias do clube.

Bulhosa, espanhol radicado na Bahia e que falava Raliça, em vez de Galícia, quando se entusiasmava além da conta pela atuação de Apaná lhe rasgava elogios – e, escondidamente dos demais colegas, lhe passava um bicho extra, saído do seu bolso, evidentemente. Se achasse que a atuação dele tivesse sido “mais ou menos”, cobrava-lhe mais empenho, depois da pugna, ainda no vestiário. Se o visse fora dos seus melhores dias, gritava para o treinador:

- Enaldo (Rodrigues)! Você tem carta branca. Mas passe o Apana prá  para esquerda (da zaga); tire o Apaná de campo, “para preservar a imagem dele”.

 Durante um jogo do Galícia pelo Campeonato Baiano de 1969, contra o Ideal, de Santo Amaro da Purificação, um atacante do time rubro-negro interiorano entrou pra rachar o Apaná, no mínimo, em dois pedaços de suas canelas. Mas o intrépido zagueirão azulino levantou-se, rápido, assoviando. Abaixou o meião, beijou dois dedos da mão direita e tascou bicotas na canela pneumatizada. Raul Bulhosa y Bulhosa vibrou. Nunca vira tanta raça dentro das quatro linhas.

O Galícia Esporte Clube, surgido em 1933, foi o primeiro time nordestino a encarar a Seleção Brasileira. Levou 10 x 4, no feriado do 7 de setembro de 1934, no já demolido Estádio da Graça (bairro nobre de Salvador). Mas a goleada pouco importou. O que valeu mesmo pra sua patota foram os quatro tentos marcados, mais comemorados do que o tri-estadual-1941/1942/1943, o primeiro do futebol baiano, história que Apaná ouvira de Raul Bulhosa Y Bulhosa. “Somos o segundo maior vencedor do Torneio Início do Campeonato Baiano (à época, com nove canecos, empatado com o Bahia)”, contava-lhe o cartola, para animá-lo.

Apaná, isto e, Raimundo Pereira da Silva, nacido em 9 de maio de 1937, como mostra esta foto, fez parte do grupo campeão estadual baiano de 1968, embora nem sempre sendo titular. Em 1969, quando Galícia ficou vice-campeão do Torneio Norte/Nordeste, com só dois veteranos, seu grupo foi bastante renovado  - Adílson Paradão (23); Souza (25), Toninho Baiano (20), Roberto Oliveira (23), Quinha (22), Touro (30, Chinesinho (21), Deco (23), Deri (19), Nelson Leal 25  Kléber (26), André Catimba (22), Telê (22), Carlinhos Gonçalves ( 29 – Apaná já estava com 32 nos costados, d Mas se glorificava por sido vice-campeão do primeiro estadual baiano, em 1967, e campeão na temporada 1968, quando o ex-jogador e treinador Enaldo Rodrigues dirigiu este time: Dudinha; Roberto, Nelinho, Haroldo (Helio Nailon) e Touro; Josias e Chiquinho; Nelson, Carlinhos Gonçalves, Ouri e Ricardo, diante de 19.930 pagantes, em 15 de setembro de 1968l na Fonte Nova - maior vibração da vida dele, mesmo não tendo entrado na arena como gladiador granadeiro naquele grande dia.  


  

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